Falha no site do Sisu permite que estudantes acessem inscrições de outros candidatos

Estudantes que tentam uma vaga em universidades públicas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) relataram estar enfrentando mais um problema na hora de fazer suas inscrições: ao acessaram o site do sistema com seus dados, acabam direcionados para as incrições de outros candidatos.

Nas redes sociais, há relatos de casos como esse desde o início da semana. Os vestibulandos temem que pessoas má intencionadas tenham acesso às opções de cursos deles e que modifiquem suas inscrições.

Vitor acessou inscrição de candidata que pretende cursar enfermagem ou direito na Universidade Federal do Maranhão Foto: Reprodução/Twitter
Vitor acessou inscrição de candidata que pretende cursar enfermagem ou direito na Universidade Federal do Maranhão Foto: Reprodução/Twitter

Morador de Timbaúba, em Pernambuco, Vitor Augusto Cruz, de 18 anos, passou pelo problema. Ele se inscreveu para Ciências Contábeis nas universidades federais de Pernambuco e da Paraíba, mas ao entrar no site do Sisu, viu a inscrição de uma menina que pretende cursar Enfermagem ou Direito na Universidade Federal do Maranhão.

— Minha única reação foi alertar outras pessoas sobre o que estava acontecendo, para que eles prestassem atenção se não estavam logados na conta de outra pessoa ou se suas escolhas de cursos não foram canceladas ou trocadas — relatou.

Vitor terminou o ensino médio em 2017 e também tentou uma vaga no ensino superior em 2018. Segundo ele, há um ano não enfrentou nenhum problema como esse.

Sarah teve problemas ao tentar alterar universidade em que estava inscrita Foto: Reprodução/Twitter
Sarah teve problemas ao tentar alterar universidade em que estava inscrita Foto: Reprodução/Twitter

Já Sarah Gadelha, de 19 anos, enfrentou problemas ao alterar a universidade em que estava inscrita e acabou acessando a inscrição de outro candidato. A jovem, moradora de Rio Branco, no Acre, concorre a uma vaga para o curso de Direito nas universidades federais do Acre ou de Goiás.

— Fiquei super apavorada! Logo pensei que alguém pudesse ter entrado na minha conta também, meus dados estão todos lá – disse.

Morador do Rio, Thiago Santos, de 25 anos, levou três dias para conseguir se inscrever, por conta da lentidão no site do Sisu. No momento de finalizar sua inscrição — para Medicina e Fisioterapia na UFRJ —, acabou sendo jogado pelo sistema para o perfil de uma candidata.

— Estava tentando desde o primeiro dia sem conseguir. Hoje, às 5h, consegui entrar pela primeira vez, mas só pude marcar a primeira opção, depois caí. Quando consegui entrar de novo, à tarde, finalizei a inscrição, mas, em vez de voltar para minha página inicial, ele entrou na página de uma menina. Ficou tudo disponível, poderia ter trocado ela de curso.

Ao realizar uma pesquisa no Twitter sobre o assunto é possível conferir internautas relatando que passaram pelo mesmo problema em edições anteriores do Sisu, como nos anos de 2018, 2013 e 2011.

Maria Laura acessou página de candidata que não havia se inscrito ainda quando tentou visualizar notas de corte Foto: Reprodução/Twitter
Maria Laura acessou página de candidata que não havia se inscrito ainda quando tentou visualizar notas de corte Foto: Reprodução/Twitter

A estudante Maria Laura Morais, de 22 anos, também passou por problema semelhante. Moradora de Juiz de Fora, em Minas Gerais, a jovem se inscreveu para os cursos de História da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Humanas na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). No entanto, ao entrar no site do Sisu na noite desta quarta-feira para verificar as notas de corte, ela foi direcionada ao perfil de uma candidata que sequer havia se inscrito.

— Como não havia inscrição em qualquer curso e eu ainda não tinha logado, pensei inicialmente que seria algum tipo de página “demonstrativa”, que teria aparecido por falha do sistema. Mas aí percebi que tinha o nome de uma outra pessoa, Eloisa, com número de inscrição diferente do meu. A primeira reação foi de espanto, não consegui entender como aquilo foi possível — contou.

Esriel também acessou conta que não havia se inscrito em nenhum curso Foto: Reprodução/Twitter
Esriel também acessou conta que não havia se inscrito em nenhum curso Foto: Reprodução/Twitter

Esriel Ferrari, de 18 anos, também acessou uma conta que ainda não havia feito inscrição. Morador de Governador Valadares, em Minas Gerais, o estudante se inscreveu para o curso de Engenharia Aeroespacial nas universidades federais de Minas Gerais e de Santa Catarina.

— Eu fiquei espantado e com medo ao mesmo tempo, porque imagina: e se uma pessoa maliciosa consegue acessar a minha conta e alterar meus dados, roubá-los ou até mesmo alterar minhas preferências de cursos? — questionou.

Pedro Lugão, de 27 anos, tenta uma vaga para Medicina na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Morador de Niterói, só na tarde desta quinta-feira ele conseguiu fazer a inscrição no site do Sisu. Depois de algumas instabilidades no portal, o acesso do vestibulando foi alterado para o de uma candidata do estado de Pernambuco.

— Fiquei assustado. Eu estou estudando há um tempão. Imagina se uma pessoa de má fé vai lá e sabota minha inscrição? — disse.

Procurada, a assessoria do Ministério da Educação (MEC), ainda não se pronunciou sobre o caso.

Problemas de acesso se repetem

As falhas no Sisu são recorrentes desde sua estreia, em 2010. Em 2011, o Ministério Público Federal no Rio conseguiu uma liminar para prorrogar as inscrições, por conta dos problemas do sistema. Ela acabou sendo derrubada, no entanto, e o cronograma normal foi mantido. Em 2017, o cenário se repetiu e o MEC estendeu o prazo de inscrição por mais dois dias.

A edição deste ano registrou problemas desde a abertura das inscrições, na terça (22). Diariamente, inúmeros candidatos queixavam-se por não conseguir abrir a página do participante no Sisu. Segundo o MEC, os problemas na página decorreram do grande volume de acessos.

“O sistema, que nas edições anteriores, recebia de 25 a 30 mil acessos simultâneos, registrou hoje (terça-feira) picos de até 350 mil acessos simultâneos”, disse o ministério em comunicado. Na quarta (23), segundo o MEC, o pico foi de 500 mil acessos simultâneos.

Renato Pellizzari, coordenador de vestibular do Colégio Qi, afirma que os problemas recorrentes na plataforma mostram falta de preparo do governo federal.

— Sabendo do volume de tráfego nessa plataforma, da ansiedade dos candidatos que entram buscando suas vagas, como o governo não se prepara? O próprio portal estimula os alunos a acompanhar com frequência. Nesse ano eles inclusive fizeram algo bacana, que são as várias atualizações da nota de corte ao longo do dia, o que estimula ainda mais o fluxo de pessoas. É alarmante eles não se prepararem.

Presidente da ONG Educafro, Frei David Santos afirmou que os estudantes mais pobres são particularmente prejudicados, pois não têm acesso fácil a computadores ou à internet de alta velocidade. Sua instituição entrará com uma ação no Tribunal Regional Federal de São Paulo contra o MEC nesta sexta-feira, reivindicando a prorrogação do prazo de inscrições no Sisu.

A ONG pede, na ação, que uma empresa “especializada em segurança de dados e isenta” faça uma auditoria para constatar a segurança do sistema e que sejam dados mais quatro dias para as incrições após essa auditoria.

— Desde o início das inscrições, o sistema tem apresentando elevada instabilidade, muito maior que a de anos anteriores. Quem tem internet rápida até conseguiu se inscrever, mas os pobres, que têm internet ruim e passam a maior parte do dia trabalhando, não. O princípio da isonomia está sendo amplamente afrontado.

Matéria OGlobo